quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A voz da razão

Bernard-Henri Lévy é uma verdadeira legenda. Sua voz não se levanta por qualquer causa, nem costuma se dispersar em torno de situações duvidosas.
O engajamento do filósofo francês (nascido na Argélia) pela causa da libertação do escritor e ex-ativista italiano Cesare Battisti remonta às melhores tradições do humanismo que tanto marcou a vida e a luta generosa de gerações de homens e mulheres durante o curto (e trágico) século 20.
Sua carta ao presidente Lula, publicada na edição de hoje da Folha de São Paulo, apelando pela não extradição de Battisti, merece ser lida, sobretudo por aqueles que ainda permanecem contaminados pela odiosa (e insidiosa) campanha que quer ver o italiano terminar seus dias no fundo de um cárcere de evidente inspiração fascista.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Rassenkampf

Após o holocausto da II Guerra Mundial, sob o impacto do extermínio de milhões e milhões de judeus, ciganos, comunistas, eslavos e outros tantos indesejáveis para o 3º Reich, a indignação e o pavor que percorreu todo o planeta deixou como herança a Declaração Universal dos Direitos Humanos, há quase 61 anos.
A guerra racial (rassenkampf) de Hitler, paradoxalmente, havia servido para despertar a mais profunda repulsa diante de quaisquer atrocidades cometidas sob a imunda bandeira da faxina étnica.
É claro que isso não foi suficiente para varrer os massacres e pogroms, que continuaram a acontecer em todas as latitudes e sob os mais diversos disfarces e álibis. Mas, agora, essas práticas odiosas ficaram para sempre marcadas como crimes de lesa humanidade.
Pois bem. No Brasil, nas vastas terras do Mato Grosso do Sul, há décadas se pratica um etnocídio contra os Guarani-Kaiová. Guerra surda, silenciosa, mas mortífera e eficiente.
Lá, naquelas imensidões hoje cercadas pelo gado e pela soja, mata-se pela fome e pelo aço disparado pela pistolagem. E a resposta das autoridades permanece sendo um olhar aparvalhado, como se nada disso nos dissesse respeito.
O último massacre - o sequestro e assassinato de dois jovens educadores indígenas - deveria causar um escândalo nacional. Deveria - mas não vai, fiquem certos - mobilizar os altos escalões, nem desembarcará naquele Estado onde impera a máfia do agronegócio e da grilagem, nenhum contingente da Força Nacional com suas boinas vermelhas.
Não, o que se verá, infeliz e tragicamente, é a repetição do silêncio. O silêncio dos cúmplices.

domingo, 22 de novembro de 2009

Uma canção para a hora de acordar

O Brasil sob a mordaça das 11 oligarquias que controlam o bilionário mercado da comunicação é o mesmo que, nos últimos cinco anos, fechou, com requintes de crueldade policial, 6.716 rádios comunitárias, abrindo 3.118 processos judiciais contra essa nova categoria de insurgentes midiáticos.
Diante disso, falar em liberdade de expressão, como tanto se faz nos editoriais da grande imprensa, chega a ser uma indecência e mais um bom motivo para conhecer o excelente e oportuno Levante sua voz, do cineasta Pedro Ekman, produzido pelo Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social com apoio da Fundação Friedrich Ebert Stiftung.

Crepúsculo

O mundo dá mesmo muitas e intrincadas voltas. Só isso para explicar que o Diário do Pará, órgão oficial dos interesses comerciais e políticos do clã Barbalho, abra neste domingo manchete de primeira página (Jatene: "tenho apoio do PSDB e do povo"), com o inequívoco objetivo de inflar o balão do virtual (e auto-proclamado) candidato tucano ao governo do Estado em 2010.
Que ninguém se engane: não se trata de uma recaída de objetividade na editoria política do jornal. Antes, muitíssimo pelo contrário. A entrevista de página inteira serve mesmo para mandar um poderoso recado sobre as múltiplas possibilidades de movimentação do PMDB no próximo ano. É uma forma nada delicada de aproximar uma faca bem afiada para mais próximo da jugular do petismo encastelado no Palácio dos Despachos e cada dia mais refém do vale-tudo em que voluntariamente se enredou.

sábado, 21 de novembro de 2009

Dialética dos levantados do chão

"Do destino dos deserdados, em tais brenhas, fale por nós a história de Antônio Conselheiro. Não tinha terra, gado, riqueza de espécie alguma, nem sequer mulher. Foi degolado. Lampião tinha mulher e dinheiro, mas não tinha uma beirada de terra onde descansar a cabeça. Foi degolado.
O santo e o bandido, cada um a seu modo, foram uma reação à prepotência do meio. Porque a terra era, de fato, o exílio insuportável, o morto bem-aventurado sempre."

Nertan Macedo (1929), escritor cearense. Capitão Virgulino Ferreira: Lampião (1959, p. 35).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mentiras que parecem verdade

O fascismo está morte e enterrado. Está? Ou será que perambula por aí, como um morto-vivo, às vezes demonstrando uma vitalidade que muitos julgavam extinta?
O caso Cesare Battisti e suas apaixonadas repercussões - aqui e no velho continente - deve servir de sinal de alerta.
Ninguém melhor do que Umberto Eco para expor a profundidade dessa ferida italiana.

A dança do cisne

O STF acolheu mais uma denúncia contra o Wladimir Costa (PMDB-PA). É a terceira ação penal aberta para investigar possíveis crimes cometidos pelo radialista, dançarino e íntérprete de brega music, proprietário de uma emergente rede de rádios espalhadas pelo interior paraense e, nas horas vagas, obscuro frequentador do plenário e das comissões da Câmara dos Deputados.
A investigação é por peculato, um pecadilho, digamos assim, diante do que pode ser descoberto se o parlamentar for efetivamente submetido a uma investigação séria e profunda.
De qualquer forma, pode ser um começo. O demônio, é sempre bom recordar, adora mesmo é se abrigar nos detalhes.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Cheiro de queimado

Um acordão entre o governo e os ruralistas para revisar o Código Florestal. Adivinhem quem vai pagar a conta.

Na marca do pênalti

Agora está nas mãos do presidente Lula. A ele, e somente a ele, cabe decidir os destinos do escritor e ex-ativista italiano, Cesare Battisti.
A sessão de ontem (18) do Supremo Tribunal ederal (STF) foi uma das mais tensas e disputadas dos últimos anos. O ardor e o quase destempero dos ministros que defendiam a extradição a qualquer custo deu a dimensão exata da paixão político-ideológica que dominou todo esse tumultuado julgamento.
O ministro-presidente Gilmar Mendes, com seu estilo de capataz enfezado, ainda tentou manobrar e, num golpe de mão, subverter a nova maioria formada para afirmar que a decisão da extradir o italiano não era impositiva ao presidente da República. Bola fora. Gol de mão, todos sabem, não vale. Mas é prorrogação ou quem sabe nos pênaltis que essa partida será decidida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Você me prende vivo, eu escapo morto

21 de janeiro de 1971. O ex-deputado Rubens Paiva foi arrancado de sua casa por homens de metralhadora em punho e submergido nas trevas do aparato repressivo do regime militar. Até hoje, quase 40 anos depois, permanece como desaparecido. Seu corpo jamais foi encontrado.
O véu de mentiras e de silêncio começa a ser rompido. Um ex-agente do nefasto DOI-Codi resolveu abrir o bico. Marival Chaves, à época sargento do Exército e analista de informações do Doi-Codi em São Paulo, em depoimento ao cineasta Jorge Oliveira para o filme "Perdão, Mister Fiel", admite saber os nomes dos torturadores que mataram Paiva e depois esquartejaram seu corpo. Havia, segundo ele, uma espécie de disputa macabra entre as diversas equipes para saber quem conseguia reduzir as vítimas em um menor número de pedaços.
Estas e outras histórias terríveis devem vir à tona, bastando que alguém - no Judiciário ou no Parlamento - chame para si a inadiável tarefa de lançar um facho de luz neste canto pavoroso do passado recente de nosso país.

O nome do fracasso

No último ano, com o agravamento da crise econômica global, o número de famintos pulou de 850 milhões para mais de um bilhão de pessoas. A agência da ONU para a Agricultura e Alimentação (FAO) reconheceu o fracasso na última Cúpula realizada em Roma: a meta de reduzir pela metade a fome no mundo até 2015 está definitivamente prejudicada. O motivo é simples: os países ricos (e os tais emergentes) arrombaram os cofres para salvar bancos e grandes indústrias - no mínimo 10 trilhões de dólares até o final de 2009 -, enquanto não se conseguiu amealhar os US$ 44 bilhões que seriam necessários para erradicar definitivamente a pobreza no planeta.
A Via Campesina, articulação internacional de movimentos de pequenos agricultores, coloca o dedo na ferida. As transnacionais, lideradas pela poderosa Nestlé com suas 276 fábricas em 86 países nos cinco continentes, que controlam o lucrativo mercado global de alimentos têm enorme responsabilidade no agravamento deste quadro. E não adianta cobrir a política de rapina que promovem com o brilhante verniz da "sustentabilidade" e do pretenso compromisso com os chamados "Objetivos do milênio".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Minha casa, meu pesadelo

Israel não se detém por nada. Acaba de anunciar a construção de mais 900 casas para colonos judeus em pleno território ocupado da Cisjordânia. É a continuidade de um projeto neocolonial que retroalimenta a violência e o derramamento de sangue.
Os protestos internacionais - sinceros ou apenas protocolares - serão mais uma vez inúteis.

A alma do (mau) negócio

Que ninguém critique o governo Ana Júlia pela falta de ineditismo. Isso, não, por favor.
Afinal, qual o governo que utiliza seu caro espaço de mídia paga na TV para propagandear - ora, vejam - mais de uma centenas ações de despejo de famílias sem terra e sem teto. Ou, se quiserem dourar a pílula amarga, "reintegrações de posse" realizadas de forma supostamente pacífica e sem violência.
Sem violência? Querem apenas dizer que não há mortos estirados no chão. Encontrou-se um método mais asséptico e quem sabe mais eficiente para que a "limpeza étnica" siga o seu caminho.
Não se fala, até porque seria mentir demais, no oferecimento de qualquer alternativa de sobrevivência às famílias despejadas. Elas não foram, porém, desintegradas pura e simplesmente. Estão por aí, famintas, maltrapilhas, com os olhos injetados de dor, decepção e revolta, passando sol, chuva e fome na beira das estradas. Sob lonas pretas, aguardam. Até o próximo confronto ou a próxima tragédia, não se sabe.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Depois das horas

Com Cesare Battisti em greve de fome e o mais que provável desempate no Supremo Tribunal Federal (STF) em favor da extradição, com o voto de minerva do ministro Gilmar Mendes, resta ao presidente Lula escolher entre adotar uma postura que salvaguarde a soberania e o decoro do Estado brasileiro, mantendo o refúgio concedido legalmente, ou se vergar às pressões da direita de todas as latitudes, agindo como um moderno Poncius Pilatos.
Mas existe uma última esperança: se for confirmado o entendimento que a palavra final nestes casos cabe mesmo ao Poder Executivo, com a decisão do STF funcionando como um mero indicativo, Lula poderá se sentir em condições de contrariar a maré montante do conservadorismo da mídia e do Judiciário. Resta torcer para que ele tenha tutano para isso.

O milho da discórdia

No próximo ano, a maior parte da safra de milho no Brasil será transgênica, um crescimento vertiginoso.
Monsanto, DuPunt/Dow e Syngenta dominam tudo, sob as bençãos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). E pensar que a porteira foi aberta há apenas dois anos , quando as primeiras variedades comerciais foram aprovadas por interferência direta do Palácio do Planalto, leia-se, Lula e Dilma, os maiores responsáveis por esta operação bilionária.